Memórias do Vitão.

Aqui vai mais um relato do nosso célebre Vitão sobre um triste episódio que marcou a história do Departamento Jurídico. Vale lembrar que a história é contada por quem efetivamente participou dela, tomando para si a responsabilidade num momento de crise e incerteza pelo qual nosso DJ passou.

“No ano de 83 ou 84, durante a gestão de Pedro Paulo Maer Proz, hoje juiz titular de Pinheiros, os estagiários pagavam para trabalhar no Departamento Jurídico XI de Agosto. Outra fonte de renda era uma taxa paga pelos clientes para orientação ou manutenção do caso, dispensável por meio de apresentação de atestado de pobreza.

Com o passar do tempo, o dinheiro não era suficiente para manter em dia as contas de água, luz, telefone, máquinas de escrever, entre outras, completamente essenciais para a operacionalidade do Departamento. Disto vocês podem deduzir que a estrutura do Jurídico era outra. Entre os pagamentos em atraso estavam uma dívida de condomínio que já chegava a quatro anos e um pedido de interdição da prefeitura devido à precariedade do prédio. A situação era caótica, o atendimento, inviável..

Com isso, deu-se uma evasão de estagiários, ficando somente aqueles realmente idealistas. Eram muito poucos; então, eu mesmo comecei a dar orientações, além de implorar a advogados que tivessem passado pelo Jurídico a dar orientações para aqueles mais carentes, com vistas a não permitir o fechamento do Departamento. Eu pegava os casos mais urgentes e mandava com uma procuração para os advogados que nos estavam ajudando, e dessa forma o DJ foi mantido vivo por um tempo”.

Nas palavras do próprio Vitão, “as portas não podiam se fechar, porque se fechassem naquela época, não abririam mais. Como em todas as faculdades, é muito difícil manter um departamento, é preciso ter muita garra, caso contrário você dança...”.

Saíram na imprensa várias notícias sobre a situação precária do DJ, mas de nada adiantou. Foi nessa época que, para aliviar a precária condição financeira do próprio Vitão, que há muito não recebia salário, tomaram como solução única possível pelos órgãos da faculdade deixá-lo morar na Casa do Estudante e comer no Bandejão, setores de assistência estudantil da Universidade..

Diante desta situação extrema, com um Departamento Jurídico endividado, ameaçado de fechamento, literalmente caindo aos pedaços, sem poder contar sequer com a presença dos alunos em sua linha de frente de trabalho e atendimento aos mais necessitados, Vitão e os poucos estagiários que ainda bravamente permaneciam trabalhando resolveram acampar defronte à faculdade, para chamar atenção da direção desta para os graves problemas do DJ. Diante do fato deste acampamento não estar surtindo o resultado esperado, os alunos e funcionário moveram-se para a frente da sala do diretor, conseguindo assim a visita do reitor da Universidade a este Departamento, e depois a financiamento d a reforma do prédio pela USP.

Enquanto era feita a reforma, o atendimento passou a ser feito na Sala dos Estudantes, na faculdade.

Entretanto, cerca de uma década após esses fatos lamentáveis terem maculado o seio deste nobre ambiente de trabalho e - por que não dizer – de estudo e aprendizado jurídico, além de centro disseminador dos ideais de justiça e responsabilidade social, a situação financeira se regularizaria a partir do estabelecimento dos primeiros convênios deste Departamento com a Prefeitura e com o governo estadual, que seriam responsáveis por um aporte de recursos responsáveis pela profunda transformação que se processou neste ambiente.

Esta história mostra como este DJ é marcado por lutas, com derrotas algumas vezes, mas vitórias sempre, perpetuando este que é o maior escritório do gênero na América Latina. Esperamos que vocês, leitores, se espelhem nesses exemplos e continuem lutando aqui por uma sociedade mais justa.

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